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  • Dr. Ricardo Abel Evangelista

Quem decide o que é "normal"?

Atualizado: 21 de jun. de 2020

Uma pessoa que passa os dias perambulando pelas ruas falando sozinha, gritando sobre a invasão dos E.T.s ou atirando pedras a esmo contra os carros que passam por acreditar que estão ali para pegá-la, pode despertar a impressão de que deve haver algo, no mínimo, muito errado com ela e aí ser facilmente rotulada louca ou de anormal. Mas por que, exatamente? Por que esse julgamento? Só porque ela destoa do comportamento esperado pelos outros?


"A extração da pedra da loucura" - de Hieronymus Bosch

A resposta mais curta é: de certa forma, sim. Uma resposta mais longa vem a seguir, mas antes irei justificar a curta: é fundamental entender “os outros” aqui como o que representa a maioria, uma base média de como o psiquismo humano processa a realidade no mesmo contexto bio-psico-social do indivíduo avaliado. Quando membros de uma mesma realidade social e cultural estranham o comportamento de um indivíduo, vale o conceito estatístico de normalidade, ou seja, o normal é o que acontece com mais freqüência, o que é mais comum no universo analisado. Se a percepção de uma invasão alienígena, se falar sozinho (mas não como quem “pensa em voz alta” mas sim no contexto de responder a vozes que somente você escuta), se ter certezas irrefutáveis sobre “fatos" que são verdades absolutas numa lógica extremamente individual impossível de ser compartilhada, enfim, se tudo isso acontece apenas com um membro de certa comunidade de pessoas de forma que ninguém mais consiga experimentar daquele mesmo universo personalíssimo de percepções e de interpretações, tudo isso seria sugestivo de que a pessoa realmente destoou de seus pares no mesmo recorte bio-psico-social. Lembrando: não estamos nos referindo a meras escolhas pessoais, como ficará destacado mais adiante. Na verdade, aqui o poder do arbítrio individual está anulado e a pessoa não consegue fazer escolhas realmente livres para que ela seja como ela quer ainda que destoando do em torno. Aqui, no exemplo dado, a pessoa é muito mais uma refém de distorções da realidade que a prendem numa experiência extremamente estreita de mundo, não se tratando de excentricidade voluntária ou mero estilo individual. A discussão sobre o que é realidade abre todo um outro capítulo de debates filosóficos, o que não é nosso escopo neste texto.

A resposta mais longa tem a ver com o estilo adaptativo do sistema nervoso central (SNC), em especial do cérebro, ao longo dos milênios de evolução. O SNC se desenvolveu filogeneticamente nas várias espécies animais com a mesma finalidade: permitir a melhor adaptação ao ambiente, capturando informações do meio externo do organismo, processando-as e elaborando algum tipo de reação, seja um movimento, uma atitude de fuga, de agressão, ou ainda a aproximação ou afastamento de algum estímulo. Por exemplo, animais ao sentirem o cheiro de alimento (um input sensorial ao SNC) mudam seu comportamento na busca da fonte do cheiro. Animais ao escutarem o som típico de seu predador, têm a freqüência cardíaca aumentada preparando-o para lutar ou fugir. Caso esse sistema de detecção de estímulos provenientes do meio externo falhe, o animal poderia ficar sem achar alimento ou se tornaria uma presa fácil, para ficarmos nos exemplos acima. Se isso não acontece, é graças ao bom desempenho do SNC plenamente integrado com o restante do organismo.

Mas quando falamos de seres humanos, seria assim tão simples? Evidente que não. O SNC humano evoluiu com a complexidade necessária para fornecer as adaptações necessárias à sobrevivência de um mamífero que não é o mais forte, nem o mais rápido, nem o mais ágil. Sem entrarmos muito nesse assunto, vale sublinhar que o ser humano somente prosperou pois seu caminho evolutivo exigiu vantagens cognitivas e intelectuais desenvolvidas a partir dos mecanismos de seleção natural ao longo de milênios. Contudo, um SNC tão poderoso continua sendo, apesar de complexo, apenas mais um componente orgânico do conjunto do corpo humano e, sendo assim, está sujeito a falhas funcionais, a erros em sua fisiologia. Em outras palavras, o cérebro pode adoecer como qualquer outra parte do corpo, como qualquer outro órgão, e dessa forma não consegue mais entregar os resultados esperados.

Para entendermos como esses erros cerebrais interferem no comportamento, antes temos que lembrar que o SNC é multifuncional: é ele quem elabora e coordena a motricidade muscular, decodifica os impulsos capturados pelos órgãos de sensopercepção (visão, audição, paladar, tato, olfato e propriocepção), possibilita os fenômenos cognitivos (atenção, memória, orientação temporoespacial, praxia, gnosia, cálculo, tomada de decisões, compreensão e expressão da linguagem), produção e regulação das emoções (alegria, tristeza, raiva, medo, ansiedade, saudades) além de todo o mundo imaginativo do pensamento, a capacidade de abstrair, fazer planos e formular raciocínios lógicos. Caso aconteça uma falha na "infraestrutura cerebral", por assim dizer, o resultado serão distorções destas funções de forma inescapável.

Com “infraestrutura cerebral” quero dizer o conjunto estrutural formado pelas células nervosas que se organizam em circuitos e núcleos, assim com os aspectos funcionais disso tudo. Atualmente, a melhor nomenclatura para este conjunto de neurônios se intercomunicando com altíssima complexidade é conectoma. Quem entende a diferença entre hardware e software na informática entenderá melhor esse conceito. Erros nessa tal infraestrutura produzem formas aberrantes de perceber a realidade, de reagir a ela, de elaborar pensamentos, de reagir a eles, e até mesmo podem surgir estados emocionais bizarros, excessivos, desproporcionais. Estes chamados "erros mentais" subtraem a capacidade adaptativa do indivíduo ao meio ambiente, não raro produzindo algum grau de sofrimento e podendo ser percebidos por outras pessoas que não experimentam da mesma anomalia.

É objeto de profunda discussão acadêmica quais seriam as fronteiras para a intervenção de terceiros sobre o direito individual de destoar do “normal”, mas como foi dito acima e destaco novamente, as pessoas que se encontram na situação da referida “anormalidade" nunca fizeram a verdadeira escolha de estarem daquele jeito. Uma opção n

unca lhes foi dada e, por isso, se tornaram prisioneiras de uma realidade paralela personalíssima muito sofrida derivada de erros ocorrentes em seu SNC, impossibilitados de se conectarem ao mundo como seus pares o fazem e, portanto, impedidos de seguirem uma vida frutífera, quaisquer que sejam os modelos de vida que pretendessem seguir.


Ilustração: Dom Quixote contra os gigantes

Por Ricardo Abel Evangelista.

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