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  • Dr. Ricardo Abel Evangelista

E a tal loucura?

Atualizado: 2 de jul. de 2020

Como psiquiatra sei que não existe uma doença chamada “loucura”. Claro que no dia a dia as pessoas - e até eu mesmo - usamos esta palavra para nos referirmos a experiências muito fora do comum, atípicas ou bizarras em frases como, por exemplo: “Mas que loucura isso que ele fez!”. Por extensão, o "louco" seria o protagonista da loucura por ser dominado por ela ou, talvez, por agir de propósito daquele jeito só para ir de encontro ao status quo ou ao dito establishment, deixando sua marca personalíssima no mundo. Contudo, "loucura" e "louco" são termos que gozam de uma elasticidade semântica muito grande. Há quem use estas palavras como se fossem verdadeiros elogios à ousadia; outros, de forma mais depreciativa, como rótulos patológicos. Então, o que afinal é a loucura? Quem são os loucos?


Retrato de Salvador Dali - por Thierry Ehrmann, 2015.

Desde que na história evolutiva humana se encontraram vantagens na vida em grupo, o convívio coletivo trouxe a necessidade de certas regras sociais e ao mesmo tempo possibilitou o ambiente ideal para que comparações entre os indivíduos acontecessem muito naturalmente. Dessa forma, a óbvia heterogeneidade humana aparecia estampada nas habilidades pessoais (inatas ou adquiridas), nas personalidades de cada um, nas diferentes coleções de virtudes e defeitos, nas preferências individuais. Entretanto, ainda que os indivíduos fossem exclusivos, o convívio coletivo trazia sempre um certo "nivelamento exógeno” sobre as possibilidades comportamentais de cada um. Por exemplo, ainda que um sujeito tivesse um tipo intensamente irritável e agressivo, ele não poderia (ou não deveria) sair espancando ou matando, por conta das consequências que se recairiam sobre ele, derivadas das regras e freios sociais vigentes em sua comunidade. Estabeleceram-se modelos de comportamento que eram considerados aceitáveis por favorecerem o convívio seguro entre os membros do grupo.


Esse “nivelador comportamental” é formado pelo referencial coletivo de certa sociedade, balizada por seu arcabouço cultural. Assim surgem parâmetros para que membros de um grupo social avaliem sem perceber os comportamentos de seus pares, estranhando quando certas atitudes destoam do padrão médio daquele povo. Intuitivamente, pessoas imersas desde sempre em certa sociedade, com certos parâmetros culturais, observam desde crianças o comportamento dos demais membros de sua sociedade. Ao longo de anos, pela educação que se recebe, pelas experiências pessoais e pela mera observação, vão se formando parâmetros comparativos de como agir ou de como se comportar. Além destes referenciais culturais bastante subjetivos do que seria considerado comportamento estranho, podemos também fazer uma leitura de cunho mais estatístico do assunto. Uma certa "régua comportamental" seria moldada com base na contaminação pela maioria dos comportamentos das pessoas, pelos comportamentos mais freqüentes, pelas ações e reações mais esperadas. Em estatística, eventos que são mais frequentes se acumulam em torno de um valor médio recebem o nome de eventos normais e dão origem a uma representação gráfica famosa, a tal Curva de Gauss*. Assim sendo, o que desvia deste normal estatístico, poderia ser entendido literalmente como fora do normal - e nos termos do psiquismo e do comportamento é aí que estariam as ocorrências consideradas, sem qualquer julgamento moral, como fora do normal.


Ainda assim, vale trazer à discussão a questão do livre arbítrio. Cada indivíduo pode ser livre para fazer suas escolhas e determinar suas preferências e agir de acordo desde que isso não gere dano a outra pessoa. Neste sentido, quem não concorda com um comportamento considerado pouco normal mas que fora deliberadamente adotado, poderá usar o rótulo de "louco" de forma meramente pejorativa ou preconceituosa, sem qualquer significado psicopatológico de fato. Eis um fenômeno de cunho sociológico, que não é o escopo deste texto.


Aqui entro num ponto que para alguns é motivo de polêmica. Por isso esclareço que nitidamente o viés deste site é científico e que é dentro deste parâmetro que colocarei a questão. Embora haja quem defenda de forma aguerrida a soberania absoluta do livre arbítrio sobre o comportamento humano e que argumentem que este seria essencialmente moldado por determinantes sociais, destaco que o ser humano é afetado por determinantes biopsicossociais e, portanto, é também - e primeiramente - um ser biológico. Digo assim pois se condição biológica íntegra não existir, não há como o ser se desenvolver em sua plenitude psíquica ou social. Sendo assim, não se pode ignorar que pensamentos, emoções e comportamentos passam pelo crivo do cérebro, um órgão biologicamente constituído e devidamente integrado com o organismo como um todo. O cérebro humano, embora seja possivelmente a “máquina" mais complexa do universo conhecido, depende da correta organização estrutural e funcional de neurônios que interagem formando núcleos e circuitos específicos. A este conjunto total interconectado, formado por mais de 100 bilhões de neurônios que formam entre si, de forma dinâmica, algo na ordem de 100 trilhões de sinapses, denominamos conectoma. Desta complexa interação é que surgem fenômenos incríveis como o raciocínio lógico, o abstrato (incluindo aqui a imaginação), a decodificação da sensopercepção, as funções cognitivas (como memória, atenção, linguagem, praxia, gnosia, orientação, cálculo), os estados emocionais e a motricidade (voluntária e involuntária). Esta maravilha natural chamada cérebro, ainda assim é um sistema biológico de alta complexidade e, portanto, pode falhar, pode adoecer ou, colocando de forma mais coloquial, pode “funcionar errado”. Possíveis erros das funções listadas desaguam em sintomas ou em comportamentos involuntariamente alterados, em sofrimentos involuntariamente sentidos, em incapacidades funcionais que jamais dependeram do arbítrio individual. Essa é a essência dos transtornos mentais que acontecem por causa de erros cerebrais variados, sendo alguns simples e curáveis, outros, crônicos que apenas podem ser amenizados. Se entendermos que o estado patológico nunca foi uma opção e que o simples querer ficar bem pode ser pouco eficaz para que a cura aconteça, o portador do transtorno mental estaria em linguagem figurada “aprisionado pela loucura”, apartado da vida normal onde o sofrimento seria meramente fruto das contingências contra as quais ele poderia lutar e não uma condição apriorística.


O tom determinístico que adotei é proposital, apenas para servir como contraponto saudável a discursos que hipertrofiam o peso que o mero desejo teria sobre o bem-estar pessoal. Sem menosprezar o papel da vontade sobre as escolhas individuais, optei por destacar que esta tem alcance bastante limitado quando debatemos a doença mental, o que é realmente patológico no mundo psíquico ou, como dizem alguns, a tal loucura.

Carl Frederick Gauss - por Christian Albrecht Jensen, 1840.

por Ricardo Abel Evangelista



* Em meados do século XIX, o matemático Carl Frederick Gauss, com seus estudos sobre eventos da natureza, observou um comportamento padrão entre as amostras estudadas por ele. Esse comportamento, posteriormente foi apresentado graficamente como a "Curva de Gauss” que mostrava que grande parte dos eventos naturais ficam em torno de um valor médio, com uma certa variabilidade. Leia mais em: https://www.voitto.com.br/blog/artigo/distribuicao-normal .

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